O trem da meia-noite.

 
  Já era meia noite quando ela pegou o trem que levava para lugar qualquer, não importava, ela era sempre tão misteriosa, sempre sabia de tudo, sempre sabia de nada, ninguém a entendia e ela sempre fazia tudo igual como se a rotina fosse assustadora demais para ser mudada, ela levantava tantos olhares e nunca olhava para ninguém, se sentia tão estranha e afinal ela era, quem puderia discordar?
    Com seu casaco sobre os ombros e um livro pequeno na mão se sentava em um banco sempre afastado de todos, ela olhava a paisagem se mover em fração de segundos lá fora, as coisas mudarem rápido demais e pensou que assim seria as coisas na sua vida, pois agora mesmo ela não se sentia bem o suficiente, ela estava triste e tinha acabado de perder o emprego, pensou no que contaria, desistiu umas mil vezes, não gostava de fracassar, mas ninguém sabia, ninguém nem mesmo ouviu quando ela chorou baixinho perto do vidro da janela daquele trem barulhento.
    Era tão linda para ficar com o rosto todo vermelho, mas algumas vezes você quer desabar, não é verdade? Foi isso o que ela fez, ela pensava coisas que as outras pessoas não pensavam, ela via beleza nas coisas que ninguém via, ela tinha a sua sensibilidade carregada de força e bravura, lutou muito para está ali e alguns dias foram piores que outros e ela se perguntava onde levariam ela. Era tão intensa, mas havia milhares de coisas no mundo que ainda não entendia, havia milhares de coisas no mundo que ela não podia resolver e muitas vezes ela deixava para lá, até porque era isso que todo mundo fazia, mas isso acontecia todas as noites quando ela pegava o trem da meia noite, mas naquele dia em especial ela conheceu alguém.
    Era muito bonito, sentou ao seu lado, não ligou seu estado, até se apresentou, percebeu os soluços abafados da pobre garota e se apresentou de novo e de novo, talvez afim de irrita-la ou só faze-la rir. Então naquele momento ela secou as lágrimas e se endireitou, conversaram sobre muitas coisas, por sorte a viagem de trem que devia durar apenas trinta minutos durou três horas e meia, ambos passaram das suas estações, o trem foi secando aos poucos, foi ficando um grande pedaço de ferro solitário, assim como o humano.
    Era absolutamente incrível como as pequenas coisas não eram mais importantes, ela pensava esse tipo de coisa, ela pensava sobre conto de fadas e livros de ficção, pensava na conversa legal que tinha com a pessoa a sua frente e uma vez ou outra pensava para onde uma mãe estava indo com seus filhos em um trem da meia noite, o pai morreu, bebeu demais? bateu neles? A expressão era tão desolada quanto a dela mais cedo, todos tinha problemas, cada um lhe dava com formas diferentes, ela sabia disso, mas a forma como lhe dava com os seus era engraçada, tinha que vir todas as noites chorar no mesmo banco, até que alguém tinha finalmente sentado ali com ela, ela riu mais uma vez, ele contou uma ótima piada, aos poucos as lágrimas foram sorrisos, a madrugada foi recebendo o sol e interesses comuns foram surgindo, um romance improvável aconteceu, mas o que dizer dele? poderia durar? Talvez.
     Talvez também fosse só uma coisa boba de um noite andando por uma cidade fria e egoísta onde uma vez se encontra alguém e simplesmente embala uma conversa, acho que foi isso que aconteceu, porque quando ela teve que voltar para a realidade, ela ia saindo porta a fora do seu refugio, e ele gritou.
"Você não me disse seu nome".
   E ela com aquele sorriso que só ela sabia dar, com toda sua graciosidade e mistério, respondeu:
"Eu sou o infinito em pessoa".
   E eles nunca mais se viram, talvez o infinito mude assim mesmo, vai indo de lugar para lugar, encontrando um cantinho mais confortável para chorar, porque nem ele entende o que se passa em sua cabeça. O que se passa dentro de um infinito inteiro? Tem barulho, tem calmaria, tem dança e música e isso tudo não parece caber em uma pessoa, tenho minha dúvidas quanto a transbordar, porque vivo achando que transbordo demais e tenho dúvidas porque pessoas vazias não pegam disso, em uma conversa pelas ruas egoístas no trem da meia noite.

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