Talvez se fosse verão.


     Talvez você tivesse voltado se fosse verão, talvez não. Talvez você tivesse voltado, porque as folhas estavam mais bonitas e o sol brilhava mais forte. Talvez você tivesse voltado se eu tivesse te dito que estava ótima, que estava forte e feliz e rindo. Fazendo o que eu continuava fazendo. Talvez você tivesse voltado se eu tivesse te falado que nas terças ainda vou na cafeteria da esquina e peço o de sempre, seja lá qual era o meu sempre naquele tempo.
      Talvez você tivesse voltado se eu tivesse dito que "ok, volte quando quiser", mas não fiz isso. Ouça, querido, nós dois sofremos muito, a vida não é fácil para ninguém, que belo tapa a gente levou na cara, que belo tombo. Eu também tinha direito, sabe? De ir, de ir para qualquer lugar como você fez, de fugir, como você fez e de te dizer que talvez eu voltasse algum dia.
       Eu tinha o direito do sumiço, eu tinha assim como você teve, mas não fiz, fiquei aqui e esperei você acordar, pegar o carro e vir direto para cá, me falar sobre as músicas que andava ouvindo, sobre um biscoito novo que comeu, sobre um clipe que achou extremamente ridículo, sobre uma música nova que ouviu, sobre o que seus amigos disseram com você, por ser fofo demais. Eu tinha direito aos seus dias, uma pequena parte dos seus dias, eles me salvavam, queria brigar de brincadeira com você, fingir que estava chateada para ganhar um beijo.
        Não fui, fiquei. Fiquei destruída, fiquei arrasada, fiquei em pedaços, mas fiquei e fui ficando, esperando o dia que você sentiria minha falta e me ligaria com uma conversa esfarrapada que duraria horas de gargalhada, mas isso não aconteceu, achei que fosse o telefone, achei que fosse o universo, achei que fosse o infinito inexplicável entre nós, mas era só você, apenas você que cansou de um passado em que me tinha, peguei meus pedaços e fui juntando, cansada de esperar e de ficar, cansada de entregar minha existência para isso.
         E quando procuro desculpas de você voltar, quando culpo o clima, quando culpo minha rotina, quando culpo minha péssima perspectiva de vida, quando culpo todas as músicas, quando culpo todos os meus defeitos, hábitos, quando me culpo por sua covardia, por sua canseira, eu desabo e vou ficando assim, até alguém chegar e me confortar como uma criança, dizendo que avida tem dessas mesmo, que você vai sendo magoado e vai ficando tudo bem, não tão bem.
         Decidi que não queria mais culpar o clima, não queria culpar todos os meus erros, meus remendos, meus buracos, minhas lágrimas, minha rotina, o telefone, as pessoas e o infinito, pelo motivo de você não voltar. No fim, culpei você mesmo, porque quem ama vem na chuva, na neve ou no sol, vem com mais uma mala de defeitos e soma com os seus e procura a solução de todos eles, liga, mesmo que seja para dizer uma coisa boba e fica todo envergonhado, quem ama se preocupa, quem ama, quem ama... Enfim, que ama não inventa "talvez", quem ama vem e fica, e não vai embora nunca mais.

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