Não precisa me ligar.

 

      Não precisa ligar mais, já está tarde e eu vou dormir, tenho que acordar cedo amanhã e seguir minha vida. Não precisa ligar amanhã também, não faz diferença, sabe? Eu acho que cansei, e estou ainda mais cansada de dizer isso, de brincar com esse jogos que eu não sei jogar, nesses que eu só perco. E se me disser que está doendo também, já não sou capaz de acreditar, porque você parece que não se importa e eu sim, quando algo machuca, eu coloco para fora, rasgo minha alma e doou todas as minhas lágrimas ao inexistente.
      E aquele café que você me prometeu, eu comprei um dia desses, tomei lá naquela mesa, sozinha mesmo, até pedi uma torta, paguei por tudo, comi tudo e olhei pelo menos 45 minutos pelo vidro, olhei quarenta e cinco minutos uma árvore quase demolida na esquina e quando cansei fui embora, cheguei no apartamento, joguei longe os sapatos e li um pouco, então eu me lembrei de razões de acreditar em você. Porque naquele dia, eu cansei de esperar e paguei o café que parecia nunca chegar, e era tudo tão típico de você, um dia você prometia um café, um cinema, um jantar... Nunca aparecia, acho que você se esqueceu, eu nem gosto de café, eu odeio ir ao cinema e nunca janto, mas eu aceitava tudo, acreditava em casa coisa dessas, porque no fim das contas, eu só imaginava você aqui.
      Sentia tantas saudades, não conseguia mais nem dormir, estava ansiosa, marcando no calendário o dia do cinema, do café e do jantar e das várias outras promessas que foram feitas e todo dia marcado eu voltava igual, atingida pela camada fria de ar da rua, com braços cruzados, ouvindo música triste e com o coração em mil pedaços. Não somos mais crianças e a verdade é que esperar por você me mata, me cansa e deixa meus pés, literalmente, doentes. Eu adoro sua voz e gosto quando você canta no carro, gosto quando você usa azul, gosto de como você anda, como se tivesse saído de um dos meus filmes favoritos dos anos 90, eu também gosto quando você sorrir, seu maldito sorriso, mas pensando em todas as razões, analisando todos os fatos. Há tempos que você não veste mais azul, que você não canta mais no carro, há um tempo que entrei nele ou que ficamos juntos, você deixou aos poucos aquele andar legal e agora anda "normal", você não é mais você.
        Eu não te culpo, é inocência minha achar que sempre vamos ficar igual, mas eu tentei tanto, tanto, que amar você me deixava cansada, mas no final das contas era um cansaço bom, como aquele cansaço de passar o dia inteiro pintando uma parede e no final sentar e admirá-la ao por do sol e ver que, cara... aquela mudança foi boa e a vista agora é ótima. Mas, agora, aqui no meu quarto com o gosto daquele café na minha boca, eu vejo que também não sou mais a mesma, porque estou cansada, não só porque passei o dia trabalhando e sentei em uma cafeteria 45 minutos, mas estou cansada dessas promessas vazios, desses telefonemas secos, dessas promessas forçadas, dessa pessoa que você é, não é mais aquele cansaço da parede, é aquele cansaço de não dá mais, e quando você ligar eu espero de todo coração que você não diga que a egoísta sou eu, longe disso, eu estou é te libertando, estou libertando nós dois, não só porque você não usa mais azul ou canta no carro e toda aquelas coisa. Mas porque eu vi, vi hoje mesmo, eu tenho que começar a tomar café, pelo menos às vezes, próxima semana vou ao cinema e depois jantarei por ai, não pense que quero mudar como você, não estou com inveja. Estou começando a viver sozinha, a fazer coisas que você me fez acreditar que não gostava.
         E o telefone toca, atendo e o silêncio se senta entre nós, naquela poltrona que criamos pelo telefone, naquela que você estava se levantando aos poucos e me deixando sozinha, me distraindo com um programa na TV e quando eu olhasse para o lado, puf, você tinha saído.
"Desculpa por hoje, não deu para ir. Jantar próxima semana?" Você diz, tão típico seu, mas antes era tão típico meu cobrir as lágrimas com um sorriso e dizer "ok".
         Invés disso sento e olho meu apartamento em silêncio, não há razão para ficar insistindo no que não existe, amor não é uma corda que puxa o outro para dentro ou solta de vez, amor é um ciclo de fogo, se os dois estão dentro tudo é intenso e quente, mas se um sai, não há porque continuar pegando fogo. O ideal mesmo é apagar.
" Precisamos conversar" É o que eu digo no telefone, isso surpreendeu você, a mim também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário