Era uma vez...


     Era uma vez uma flor que nasceu com pétalas brancas, mas todas as outras do seu lado eram vermelhas, seus pais preocupados, compraram um spray forte e a pintaram e ela ali se conformou em viver como as outras, infeliz, mas não estava sozinha, quer dizer, estava sim, estava sempre, não fisicamente, mas estava.
     Era uma vez uma flor, que nasceu com pétalas brancas que foram pintadas de vermelho e espinhos marrons ao invés de verdes, seus pais preocupados compraram um spray e trataram o problema, agora ela era como qualquer outra flor, entretanto a mais infeliz de todas.
    Era uma vez uma flor que nasceu com pétalas brancas e foram pintadas de vermelho, que nasceu com espinhos marrons e foram pintadas de verde, era uma vez aquela flor... que aprendeu a odiar a si mesmo e deixar a tristeza ser sua única companhia.
    Era uma vez um menino que nasceu amando outros meninos, seu pai te deu uma surra e te disse: "Vire homem". Era uma vez um menino que amava outros meninos que tinha que "virar homem", que não conseguia, que ainda amava outros meninos. Era uma vez um menino que amava meninos que foi expulso de casa, que ouviu: "Olha o viado/bicha/ fresco". Era uma vez um menino que por amar meninos morreu sozinho, espancado em uma rua qualquer, era uma vez um menino que por amar meninos, por não virar homem, por morrer espancado, nunca conheceu o amor de verdade. Era uma vez um menino morto pela ignorância.
     Era uma vez um menino que amou outro menino, mas não pôde vê-lo, porque seu pai tinha te dado uma missão impossível, ele disse: "vire homem", seu filho já era um. Era uma vez um pai que achava que a masculinidade estava na orientação sexual e mandou seu filho para rua, era uma vez um pai arrependido chorando ao pé do caixão pelo filho repreendido, espancado e não amado. Era uma vez um pai que não era culpado, que também cresceu achando que estava certo, era um pai que espalhava o ódio e deixou que afetasse seu filho. Era uma vez um pai que comprou spray e repreendeu, era uma vez um pai, um pai.
      Era uma vez uma mãe, que viu o filho sair de casa por não ser o homem que o pai queria, era uma vez uma mãe que se preocupou com o que as amigas falavam do filho, era uma vez a mãe que achou melhor ficar quieta enquanto o marido dizia que morria de vergonha daquele moleque, era uma vez uma mãe que não o impediu de partir, era uma vez uma mãe que não disse que estava tudo bem seu filho ser daquele jeito, porque isso não o mudava por dentro, era uma vez uma mãe, que agora veste preto e que já não é mais mãe.
       Era uma vez um garoto que amava outros garoto que não podia ser o homem que o pai queria e que a mãe não o impediu, era apenas. Não é mais, hoje há muitos em sua casa, choram até, para que? Eles foram os primeiros a jogar as pedras, dizem que sentem muito, não sentem. Era uma vez pessoas culpadas, mas que não se arrependem dos seus atos e voltam a fazer com outras pessoas.
        Era uma vez uma menina que amava outra menina e então seu avô disse para virar mulher, disse para achar um homem  para casar, uma casa para cuidar e ela tentou mudar, mas não conseguia. Coitada. Não podia mais fazer nada. Era uma vez uma menina que foi chamada de: "Sem vergonha/ sapatão/vadia e até prostituta" e então saiu por conta própria. Era uma vez uma menina que não sabia amar meninos, que saiu de casa com 16 anos e que nunca mais voltou, era uma vez uma menina assustada, espancada, morta a pauladas, era uma vez três homofóbicos, um pau, ódio infinito e um beco escuro. Era uma vez uma menina que não se encaixava por não amar meninos, sozinha por lugar qualquer.
       Era uma vez um avô tradicional, era uma vez uma vó que mimava a netinha, era uma vez uma avô com amor, era uma vez um coração inteiro, era uma vez um rosto seco de lágrimas, era uma vez aquela garotinha. Era uma vez um avô que chorava pela menina que não sabia amar meninos e que agora não ama mais ninguém. Era uma vez uma mãe, filha do avô, mãe da menina que amava meninas, que perdeu a filha, que nunca foi feliz, que apanhou do marido, que deixou a filha partir, que não soube dizer: "fica", que não soube dizer: "eu entendo", que não soube dizer: "estou aqui". Era uma vez uma mãe, apenas era.
      Era uma vez uma menina que não sabia amar meninos e por isso achou que não seria amada nem poderia amar mais ninguém, era uma vez uma menina que foi embora de graça, sem proteção e sem nenhuma defesa. Era uma vez mais pessoas arrependidas dizendo que sentiam muito, quando não sentiam, as pessoas eram malvadas, as pessoas são, agora só resta arranjos de flores que vão murchar, a saudade que vai ficar, o arrependimento que vai pesar, era uma vez... o menino que amava meninos, a menina que amava meninas, agora mais nada.
      Era uma vez uma flor que nasceu branca e foi pintada de vermelho, que era marrom e foi pintada de verde e morreu sufocada com a tinta e de tanta tristeza, era uma vez um menino que nasceu amando meninos e foi morto por um cara qualquer em um bar, uma menina que amava meninas e foi violentada por três caras, era uma vez, uma mãe, um pai e um avô, era uma vez aquela dor.
      Era uma vez um menino que gostava de uma menina e eles foram felizes pra sempre.

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