Sexta-feira a noite.

 

       Meu apartamento está bagunçado, não acho meu sapato, aquele preto que me faz me sentir mais feminina e que não apresenta nenhum perigo de vergonha para alguém que só usa tênis. Não sei onde coloquei meus óculos de grau e queria muito ler uma mensagem perdida no tumblr, aposto que o autor conhece a gente e quer me soltar aquelas indiretas que me acertam no estômago. É sexta-feira e não vou sair hoje, mas meus amigos chamaram muito, não há como sair.
      Vi no Facebook que você bebeu de novo, postou aquelas fotos com muita fumaça, então presumo que voltou a fumar, penso nos seus pais, a sua mãe dizia que adorava você comigo, eu "te mantinha na linha", será que isso era verdade? Acho que em alguns tempos, eu só fazia você se importar mais com o que ela pensava. Eu sei que você pensa que essas pessoas são suas amigas, mas não são, algumas vezes pessoas funcionam como amigas para outras pessoas, para nós não, paras as outras, é assim que funciona, assim como os nossos amigos jamais funcionariam com elas, é questão de afinidade.
     Seus amigos de verdade viajaram ontem, não te chamaram, sabia que você recusaria, há meses fazia isso, não foi ao boliche, não mandou nem um torpedo, o que seu amigo Gil está fazendo mesmo? E aquele outro? Lucas! Eu soube da mãe dele, você ao menos ligou para dizer que sentia muito? Creio que não. Você não se importa mais, eu fiquei aqui esperando você crescer e envelheci sentada, você disse que me procuraria quando estivesse pronto, mas nem procurou ficar, ainda me preocupo com você, ligo para a minha amiga e pergunto se ela está com você, ela diz que te ver de longe, muito bêbado, já vomitou duas vezes e rir como louco.
       Peço que te ajude a ir para casa, mas ela não arrisca, ela sabe que você tem seus novos amigos, aqueles que na primeira escorregada que você der, eles metem o pé, lembra do que você ria antes? Era das minhas caretas, piadas internas, palhaçadas no meio da minha família, agora você rir para todo mundo e para tudo, isso não me faz se sentir feliz, pode parecer egoísmo, mas me sinto comum, eu não era lá grande coisa então. É sexta a noite e quero ir aí te pegar e te ajudar a deitar na sua cama, mas você me disse que precisava de um tempo, um tempo de mim. achei que era para você se encontrar e depois me encontrar, mas na verdade era para se perder e me deixar aqui.
       Ouço sua risada do outro lado da linha, mas desligo, tenho medo de você pegar o telefone e querer uma conversa irracional, olho para os lados, lá estão meus óculos, coloco. Vejo de novo suas fotos, mais que desperdício de alma, de gente e de bondade. Não há nada que possamos fazer, é o que seus amigos e seus pais dizem, mas eu ainda estou aqui, tentando te salvar disso, de você, sei que está assustado, tudo bem, a gente pode dar um jeito, você me ignora, você faz isso o tempo todo e então entro do outro lado da linha, daquele que todos já desistiram de salvar você. Talvez em alguns anos em outra sexta-feira a gente ver os seus motivos e o rumo de suas (in)decisões.

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