Virada de ano.


     Era noite de ano novo e eu estava sozinha no meu apartamento solitário, desço as escadas, há um parque há três ruas daqui, visto minha jaqueta de couro preto, aquela que eu acho que me deixa estilosa, há pessoas por todos os lados, de branco e dourado, mas que coisa, achar que a roupa define as merdas que ainda vão acontecer no ano inteiro, tenho saudades de casa, mas já falei com todos hoje cedo, tenho vergonha de ligar novamente. Compro um algodão doce, ando pelas crianças empolgadas. foi lá onde te conheci, lembra?
      Você estava com seus amigos, acho que três, vestia um casaco quase do jeito do meu, só que em uma versão mais masculina e que te deixava muito legal, será que ele tinha esse efeito no meu corpo também? Você não me olhou e eu não esperava que fizesse isso, todos os garotos que inspiraram meus textos nunca me olharam, mas engano meu, você apenas não tinha me visto... ainda. Fiquei parada no meio da calçada, não sabia para onde ir, senti o que sentia as personagens de filmes e livros que eu tinha lido. Você me viu. BOOM, parecia que a queima de fogos já tinha começado e me senti a maior idiota do mundo.
       Você sorriu e jamais imaginei que eu poderia ficar tão feliz, sorri de volta e tomei rumo para a barraca de jogos, meu pai me levava para atirar, eu era muito boa naquilo, acertei 50 pontos na primeira, ganhei um pacote de balas.
- Três fichas, por favor. - você disse ao moço, bem atrás de mim, você tinha um cheiro bom. - Oi.
-Oi. - Respondi.
      Acerto outra de 50, conversamos, andamos por aí, você deixou seus amigos para me acompanhar até em casa, pediu meu número, elogiou minha roupa, falou sobre seus planos e obre sua faculdade, falei sobre minha saudade de casa, sobre as músicas que eu fazia e sobre minha última visita ao interior, falei também sobre em como não tinha sido amada pelos caras que conheci e você roubou um beijo e senti mais do que isso indo embora, foi minha alma e corpo.
      Depois de cinco meses, falávamos em plano do futuro, uma viagem, uma festa de casamento só para os mais íntimos, seus amigos já eram meus também, sua casa tinha ganhado algumas roupas minha no guarda roupa e sua vida também. Mas na virada de outro ano você me deixou, você nem se despediu, começou tudo do 0, não tinha espaço para mim, ainda estou com saudade de casa e de você, não há mais nada o que fazer.
       foi tudo nesse maldito parque, vesti branco e dourado dessa vez, fiquei desesperada por acreditar que minha jaqueta preta foi responsável por isso, acho que os casais que estavam serenos com suas roupas continuaram juntos... quer saber? Dane-se a roupa, você me deixou porque quis, seus amigos nem te veem mais, e quanto essa nova garota? Ela é mais bonita que eu? Mais inteligente? Mais supersticiosa? Peguei minhas roupas lá no seu quarto semana passada e o meu armário até pareceu pequeno quando elas voltaram para seu devido lugar, mas não mesmo o que fazer, lágrimas não concertam mais o estrago que você fez.
       Peço mais uma ficha, acerto outro alvo, ganho outro pacote de bala, deixo em cima do balcão, isso me lembra muito você roubando elas de mim há um ano atrás, faltam 10, eu sei que vou ficar bem, sempre foi assim querido, sou heroica, dura na queda, 7, sei que você pensa assim também, não há mais porque revirar no passado, obrigada, de nada, até a próxima, 3, foi assim que deixei, 1, feliz ano novo, foi assim que deixei aquela eu no ano velho e como todo mundo fiz promessas que tentaria cumprir, ali não voltei nunca mais. Acredito que você também não.

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