Você espera receber açúcar, mesmo sabendo que vai receber sal.


- Você deveria me dar uma nova chance. - É o que ele diz pela quinta vez naquele ano. Ele fez a barba e está com uma camiseta que nunca foi de meu conhecimento, então imagino que foi às compras. Ele passou um perfume novo, porque só de sentir o seu antigo, eu tremia. Ele fez meu pedido certo para o moço do café  eu nem precisei falar. Ele parecia certo, assim como nas outras quatro vezes que sentamos na mesma mesa, no mesmo café mantendo essa mesma conversa de ciclo doloroso.
     Você não muda e me pede para mudar, mas querido, por que deveríamos insistir? Nada nunca esteve tão certo quanto nosso término, não quero mais isso na minha vida, já rasquei folhas de três cadernos escrevendo sobre você e agora não só meus amigos me odeiam, mas também a natureza, pelo papel que ela me cedeu para você. Você diz que mudou, que nada vai ser igual e que vai começar a fazer outras mudanças, mas eu sei ao que você está se referindo, você não muda a si mesmo, você me observa como uma boneca enferrujada, pronto para tirar e colocar parafusos para a sua vontade.
- Li uma poesia essa semana da Amanda Lovelace, ela dizia que abria a boca sempre esperando que a mãe dela colocasse um tostão de açúcar, mas tudo o que recebia era sal, e era assim toda vez. - Falo para ele, ele não me entende, ele nunca me entendeu, eu sou um universo paralelo, cuja porta ele não sabe onde se encontra para entrar nessa comigo. - Toda vida que você me chama para conversar, eu venho, porque você é a "mãe"...
     Ele rir, porque de alguma forma ele é bom nisso, de conseguir coisas com aquele sorriso, de me mandar calar a boca com aquele sorriso, de mandar eu parar de envergonhá-lo com aquele sorriso, de me mandar comprar roupas novas, porque pareço "uma velha de filme dos anos 70", de me mandar parar de ouvir músicas em vinil, porque seus aplicativos são tão melhores, de me fazer colocar mais maquiagem só para servir de exposições para seus amigos, os seus amigos que me tratam como querem, como você deixa, como você incentiva.
- Eu sou a "mãe"? - Você pergunta.
- Sim. - Continuo, organizando um a um meus pensamentos que teimam em cair no chão como um colar de pérolas destruído. - Sempre que me chama, tenho esperanças, venho quase correndo, a açúcar seria sua mudança, eu sempre espero para ver e sempre agarro com gosto, mas aí você me dar sal, você não muda nada, você me trata mal e a única razão para que continue correndo atrás de recomeços comigo é porque precisa me rebaixar para sentir-se melhor. Eu sempre espero receber açúcar, afinal, é o que você me promete, mas no fim você sempre salga minha boca.
     Você está pasmado, eu sei, eu nunca diria algo daquele tipo para você. Porque eu preciso de você para dizer que ama minhas curvas quando seus amigos não estão por perto , porque preciso de você para me dizer que sou linda, mesmo que você sempre me compare e me rebaixe ao lado de outras meninas que são supermodelos. Você precisa de mim, você precisa me mandar calar a boca só para que sinta sua masculinidade fortificada, você precisa me empurrar para longe só para mostrar aos seus amigos como sua garota deve ser tratada.
       Meus amigos te odeiam, falam que você não tem nenhuma graça, falam que sou muito para você, me mandam sempre olhar no espelho e ver a mulher maravilhosa que me torno, eu nunca obedeço, sempre volto para mais, para mais sal.
- Está dizendo que não acredita no meu arrependimento? - Você questiona.
- Estou dizendo que você já salgou muito meu coração e há uns três meses atrás desde que me deu um fora novamente, eu fiz terapia, pintei meu cabelo de rosa e pintei de preto novamente, porque a tinta estava desbotando, eu comprei 19 vinis e o som como sempre soou maravilhoso aos meus ouvidos e eu dormi melhor, comecei a sair para lugares que você detestava, beijei outro cara e o beijo foi melhor que o seu, adotei um gatinho e estou acompanhando uma nova série.
- Por que veio então?
- Para ter certeza que eu não estava esperando açúcar. - Me levanto. - mas, você estava. Estava esperando sua chance novamente só para fazer tudo errado e me chutar como se a culpa fosse minha.
    E depois de sair, eu soube pela primeira vez como é salgar a boca de quem promete muita açúcar.
    Eu nunca mais vou esperar de você aquilo que você não pode dar a si mesmo.

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