"Eu queria ser atriz, mas..."

     
      Sentei no banco do ônibus um dia desses, estava tarde e naquela hora, muitos do trabalho da noite voltavam exaustos para sua casa, era uma viagem longa, principalmente hoje, final de semana em uma cidade grande, o trânsito era de cortar coração, daqueles que você adia todas as coisas que ia fazer caso chegasse a tempo em casa. Meu banco era tão solitário quanto eu, apenas eu e ele, do outro lado, um senhor barrigudo e suado, logo à frente uma senhora, não idosa o suficiente para enfrentar o trabalho da noite, atrás de mim uma mulher cansada, com alguns fios brancos, olheiras escuras e aparência farta da vida. Essa mulher, em especial, foi a que prendeu minha atenção. Virei para trás, como quem não queria nada. Sorri e dei uma boa noite tímido.
"boa noite"-Ela respondeu.
"Então, você trabalha por aqui?" - Pergunto.
"No restaurante do 513"
"E você gosta?"
      Ela sorriu e se ajeitou na poltrona, me olhava como se eu fosse ingênua, muito jovem para entender sua vida que parecia tão conturbada.
"Adultos não gostam necessariamente do trabalho, querida"
" E por que trabalham?" - Insisto.
"Porque, às vezes crescer é se sacrificar por outras pessoas, mesmo que isso custe tudo que você tem ou tudo que você é e se agarra."
"Por quem se sacrifica?"
"Pela minha filha, pelo meu neto que acabou de nascer, por minha outra filha e por mais umas cinco pessoas"
       Talvez eu, jovem como era, nem de longe estava cansada aquela altura da noite, não entendesse aquela mulher, porque ela parecia muito fraca e mesmo assim carregava o mundo nas costas, ela não reclamava, até parecia satisfeita com a missão que lhe foi dada, ela também não sorria. Meu pai dizia, o motivo das pessoas não sorrirem mais é porque sonhos foi destruídos, caminhos cortados e corações partidos. Imaginei que para aquela pobre mulher os três deveriam ter ocorrido.
"O que queria ser quando crescesse?" - Pergunto depois do silêncio.
"Eu queria ser atriz, mas..." - Ela se cala, não por não ter resposta, imagino, mas depois daquela frase poderiam haver milhões de motivos, poderiam haver milhões de ''se'', milhões de ''mas não foi'', milhões de ''tive que desistir'', eu não a culparia, aquela mulher nunca pareceu ser egoísta, pois aqui estava ela, no ônibus, eram quase meia noite, seus pés inchados, o rosto caído e ela parecia não sentir o peso do mundo nas suas costas.
"Deveria ter tentado mais."- Falo baixinho, porque uma parte de mim a ver como atriz. Queria que as pessoas pudessem ser ver como aquilo que querem ser antes mesmo de serem, então elas não desistiriam de ser aquilo nem por um segundo, porque no fundo ela iria saber que tinha valido a pena.
"Você é muito jovem para entender. Em um dia você é cheia de sonhos e no outro te dizem que eles não enchem barriga. É aí que você veste uma roupa e vai trabalhar"
''Moça, sonhos não foram feitos para encher a barriga, sonhos foram feitos para você ter sempre um motivo para acordar nesse mundo de louco, uma oportunidade de se provar e ser inspiração para outras pessoas, de fazer as coisas melhores quando partir."
        Ela sorrir, mas não fala mais nada, dentro da sacola que carrega têm leite para bebê, tem comida pronta e um livro, do qual não conheço. amo os livros, mas nesse caso, acho injusto, não e certo você se refugir nos livros ou buscar algo a mais lá na sua vida só porque as coisas deram errado no mundo real. Livro é mais que isso, livro é complemento dos sonhos, é um manual de instrução.
" Moça, eu já disse que você é muito ovem para entender, pergunte a qualquer um e verá que ninguém é tão feliz quando adulto, todo mundo se sacrificou e vive como pode" - Ela diz.
       Mas eu não ia perguntar a todo mundo, eu só queria a resposta dela, porque era a vida dela que me chamava atenção, era seus sacrifícios que me faziam acreditar em bondade e em muitos ''se'' da vida. Eu poderia dizer a ela que eu entendia de sacrifícios, que eu estava naquele ônibus fugindo de casa, que eu estava assustada, que eu estava com frio e fome, que tinha deixado meu padrasto que tanto me maltratava, que minha mãe já não abria os olhos por conta das drogas, que meu irmãozinho morreu há mais de um mês de um verme horrível. Mas, penso que desgraças acontecem com todo mundo, ficar parado e ver as coisas desabarem é pior do que pelo menos tentar algo.
      No fim, eu descobri que eu também estava mal, tão quanto ela, mas eu, pelo menos estava indo à algum lugar, estava fazendo algo, porque eu não queria entrar no ônibus um dia e aproveitar aqueles minutos silenciosos para pensar em como minha vida poderia ter sido caso eu tivesse feito algo. Quando paramos, ela se levanta cansada anda devagar. Me olha e sorrir.
" Não deixe que sua vida morra em uma poltrona querida" - Ela diz e sai.
       Mal sabia ela, minha vida tinha morrido dentro de casa, e a vidas das pessoas morrem em qualquer lugar, e a dela tinha ficado aqui, no ônibus, atrás de mim e descansava dia após dias no mesmo lugar ede nada reclamava e pensava ainda no que teria acontecido caso tivesse sido uma atriz. Era para ser, era para ser e não foi. Eu queria ter dito a ela que a vida não acaba assim, que ela podia fazer como eu, mesmo cansada, lutava por algo maior, que tirar essas pessoas das costas não iam me fazer amá-las menos. Isso não era ser egoísta, o mundo vai continuar girando mesmo que não estejamos nele, é nossa missão, pelo menos fazer algo a mais do que sentar no mesmo lugar todos os dias.
       Eu até teria convidado ela para ir comigo para lugar nenhum, para um lugar onde ela fosse atriz e as coisas fossem melhores, mas eu não sabia para onde ia, o ônibus só andava e andava e eu não reclamava e quando fosse hora de trocar eu estaria pronta para ouvir outras histórias, conhecer outras pessoas e ouvir um " eu queria ser..., mas...". Não deixe que isso aconteça comigo também.

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