Uma carta para a família de alguém com Síndrome do Pânico.

 
   Me pedir para controlar minha ansiedade e meus transtornos de pânico é o mesmo que me pedir para controlar o sol ou a chuva, eu tenho noção de onde eles estão, mas nenhum controle nenhum sobre.
Eu espero que tenham apenas um pouco de paciência e me deixem entender o que se passa, só assim eu poderei explicar a vocês e só explicando é que vocês poderão me ajudar.
Não me peçam para controlar minha respiração durante minhas crises, eu juro que estou tentando e não sei explicar como é saber que está se afogando em um lugar que não há água.
    Por favor, não me olhem com pena, eu já passei por isso antes, já ganhei armadura de metal para ser capaz de lutar contra ela, contra a mim mesma, eu sei que acham que não sou capaz de causar toda essa bagunça, mas a verdade é que minha cabeça é um lugar grande, bagunçado e poderoso, não me culpem por toda essa guerra, eu escolheria paz mil vezes se pudesse.
    Não falem comigo quando eu estiver com raiva ou magoada ou até mesmo ansiosa, não porque eu esteja sendo fútil, mas não sou eu, é ela que está ali e se ela é cruel comigo, quais palavras elas poderiam dizer a outra pessoa? Eu nunca quis magoar ninguém e já peço perdão se isso aconteceu algumas vezes, eu só queria um jeito de sair, mas não consigo sozinha.
     Por favor, não toquem em assuntos que me deixam assim, falar sobre meu futuro e colocar pressão para que eu tenha algo amanhã não me faz mais esforçada e mais inspirada, me deixa na beira do abismo que procuro não pular todos os dias,eu sei que a preocupação de vocês é real, mas para mim esse medo de cair também é, não me deixem cair. Eu sei o que vocês estão falando, eu tenho planos, mas não os coloquem como uma arma na minha mão, eu não saberia usar com responsabilidade.
     Não me compare, eu me sinto inútil quando comparada a qualquer pessoa, mesmo que para vocês elas sejam inúteis e não cheguem aos meus pés, eu não as invejo só pela capacidade intelectual, pela beleza física eu também invejo as mentes tranquilas, não levantem em mim um sentimento tão desprezível quanto à inveja por algo que não tenho e que não fui destinada a ter. Se quiserem elogiar alguém, fiquem a vontade, mas por favor não tirem meu valor, ele é uma das poucas coisas que agarro com força.
     Não me olhem como uma retardada quando eu não estiver a fim de falar mal de alguém, sempre faço isso, não consigo me imaginar num mundo onde preciso saber as últimas novidades de uma vida que não me pertence, não consigo estar em um mundo onde minha vida importe menos para ser discutida por mim mesma. Não me deixem achar que estou errada por preferir não julgar algo que não convém com a minha realidade.
     Quando eu quiser falar, por favor, por favor... me escutem. Eu não quero um dia todo dedicado á mim, eu quero alguns minutos, eu quero falar sobre o que me interessa e tudo mais, mas também vou escutar, não é que eu seja egoísta de querer falar em alguns momentos e em outros não, mas estou tentando aos poucos tomar conta de mim mesma, não é fácil acordar sem saber como vou passar o resto do dia, porque estou sempre andando em uma corda bamba que não tenho controle sobre meus pés.
     Me deixe ter minhas crenças e costumes, por favor, não me julguem quando eu pensar um pouquinho diferente, eu tenho meus próprios mundos que construí através dos meus anos, assim como vocês o de vocês, não precisam me seguir, mas não sejam maldosos, porque quando vocês são maldosos eu repasso a cena mais de cem vezes na minha cabeça e cada vez parece pior e esse é só o primeiro passo para que eu me sinta afogando de novo e de novo.
    Acima de tudo, não desistam de mim.

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